ARTE & OFÍCIO

A banda Arte & Ofício surgiu em 1976, quando o baixista Sérgio Castro e o vocalista António Garcez, dois antigos elementos dos Psico, decidem formar um grupo de Rock.

A este núcleo inicial juntam-se Álvaro Azevedo (ex-Pop Five Music Inc.), na bateria e os guitarristas Fernando Nascimento e Serginho.

Este grupo de veteranos, todos com larga experiência na música pop portuguesa pretende fazer dos Arte & Ofício um grupo profissional .

O seu som caracteriza-se por uma mistura de Hard Rock com Jazz Rock, na linha de uns Gentle Giant, mas com estéticas originais. O seu primeiro trabalho é um single com "Festival" e "Let Yourself Be", a que se seguirá outro single com "The Little Story Of Little Jimmy" e "Quibble".

Nestes dois trabalhos é notório o profissionalismo da banda e, sobretudo, descobre-se um verdadeiro performer em Garcez.

No ano do lançamento dos singles fazem a primeira parte dos alemães Can, no Pavilhão dos Desportos de Lisboa e conseguem ofuscar a famosa banda teutónica. A revista "Música & Som" titulará mesmo "Arte & Ofício-O êxito dos Can".

Bastante solicitados para espectáculos, a banda dá um concerto na cidade da Guarda no dia 8 de Abril de 1978, com a primeira parte a pertencer ao Spartaks, a jogar em casa.

Neste ano sai o máxi-single "Come Hear The Band" e "O Cacarejo da Galinha", onde a banda revela todas as suas potencialidades. O tema com o título em português é totalmente experimental e o tema-título é um vigoroso Rock, ao qual os portugueses não estavam habituados, vindo de bandas portuguesas.

Em 1979 é editado "Faces", o seu trabalho de longa duração, com duas faces bem distintas: uma face Rock e uma face Jazz Rock . Este disco conta com a participação de António Pinho Vargas, hoje reputado músico de Jazz, que fará parte do line up da banda durante algum tempo.

O grupo inicia uma tournée nacional em Teatros, com o apoio de uma marca de calças e que chega à Guarda no dia 7 de Julho de 1979. O velhinho Cine-Teatro da Guarda, com lotação esgotada, aplaudiu o grupo de Sérgio Castro. Garcez confirma-se como um verdadeiro "animal de palco" e o som da banda está cada vez melhor.

Quando se pensava que a banda estava para durar sofre um rude golpe com as saídas de Serginho e Garcez (este último para formar os Roxigénio). Nada, porém, estava perdido.

A banda recruta André Sarbib e grava "Marijuana", um mega-sucesso nos seus espectáculos ao vivo e que lhe permite fazer as primeiras partes de Joe Jackson em vários países do Sul da Europa.

O boom do Rock português, com várias bandas a cantar na língua de Camões é que foi fatal para o grupo. O público não aderiu ao seu Rock cantado em inglês e o seu último LP "Danza" não se conseguiu impor.

Pouco tempo depois do lançamento do disco, e perante as poucas solicitações para concertos, o grupo dá por terminada a sua carreira.

Ao mesmo tempo que mantinha os Arte & Ofício, Sérgio Castro forma os Trabalhadores do Comércio, que lhe permitem continuar na crista da onda durante o tempo que durou o fenómeno do Rock português.

Foi, aliás, com esta banda brincalhona (?) que António Garcez voltou a gravar e a cantar em português.

Aristides Duarte / Nova Guarda (8/09/1999)

DISCOGRAFIA

Festival/Let Yourself Be (Single, Orfeu, 1977)
The Little Story Of The Little Jimmy/Quibble (Single, Orfeu, 1977)
Come Hear The Band/O Cacarejo da Galinha (Maxi-single, Orfeu, 1978)
Faces (LP, Orfeu, 1979)
Marijuana (LP, RPE/Gira, 1980)
Danza (LP, Polygram, 1981)

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Os primeiros quatro discos foram editados pela Orfeu. A seguir, aparece o «Marijuana», que saiu pela Rádio Produções Europa, que também publicou o primeiro trabalho dos TdC. O último disco, o álbum «Danza», já saiu na Polygram.(...) O último álbum, para a Polygram, foi quase uma forma de chantagem, porque eles nunca tiveram qualquer interesse no grupo. Eu é que lhes disse que só gravávamos um disco dos TdC se também saísse um dos A&O. Mas, curiosamente, até vendeu bem, cerca de quatro mil unidades, e chegou ao top. Olhando para trás, os A&O estiveram nas listas de vendas várias vezes: com o «Marijuana» e com o «Come Near the Band», que foi o primeiro máxi-single a ser feito em Portugal, em 1977. É incrível, porque esse disco chegou a ser o «hit pick» para Portugal, segundo a «Billboard». Chegou mesmo a passar em estações de rádio americanas, se calhar porque tinha um ar funky. Isto ainda foi com a formação original da banda, com o António Garcês.

Sérgio Castro / Blitz (1996)

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 Sérgio Castro e Garcez formaram em 76 os Arte & Ofício, que incluía entre outras coisas um violinista clássico. "Ele fazia as melodias e eu as letras, cozinhávamos uma música muito estranha, tudo em inglês, super-influenciado pela onda inglesa da altura."

Iniciar-se-ia um dos períodos mais intensos da vida roqueira de Garcez. Cabeludo, roupas compradas em Londres, botas grandes, vestia-se à imagem dos roqueiros britânicos da época e dirigia-se para os concertos num Porsche 911.

No final dos anos 70, os Arte & Ofício desembarcavam nas terras com luzes, máquinas de fumos e uma máquina de fazer bolas de sabão, a cantar "Marijuana is the taste of love". António especializou-se nos mergulhos para a assistência. "Voava para o meio do público, o pessoal agarrava-me, tiravam-me as botas, a camisola e no fim do concerto, vinham-me trazer as coisas religiosamente..."

Naquele tempo, conta, "havia uma devoção total à cena, vivia-se o momento. Muitas vezes pensei - agora é incrível pensar nisso - que seria fantástico morrer em palco."

Ainda não existiam os copos de plástico para a cerveja. "Atiravam-nos com garrafas. Tínhamos um músico, o Fernando Nascimento, com um aspecto muito convencional, parecia um empregado de escritório. Estavam sempre a atirar-lhe coisas."

Uma vez no Clube de Ténis de Portalegre, um grupo de fãs dos rivais Tantra começou a atirar objectos e a "mandar bocas". Garcez não esteve com meias medidas: "Tínhamos um bloco de fãs nossos à frente do palco. Eu disse: 'ouçam lá, aqueles gajos ali estão a precisar de levar nos cornos...'"

Eram frequentes os distúrbios em restaurantes. Num restaurante de Portalegre, em 78, começou tudo por causa do peixe. Garcez, filho de Matosinhos, odiava peixe congelado. Serviram-lhe peixe em mau estado, não quiseram substituir-lhe o prato e convidaram-no a sair. Não esteve com meias medidas. "Convidei a malta a partir o restaurante. Só me lembro das mesas, cadeiras e pratos a voarem por todo o lado."

Os elementos dos Arte & Ofício bebiam muito. "A nossa onda era mais vinho e fumar uns pirolitos... mas tínhamos uns roadies que 'chutavam', era uma miséria, deixavam-nos ficar mal..."

Nas povoações onde tocavam, eram insultados pelos mais conservadores e defendidos pelos "hard-die fans", alguns dos quais morreriam de overdose. "Outros passaram-se e nunca ficaram bons da cabeça. Tínhamos um muito carismático, o 'Che Guevara', na Covilhã. Lembro-me que o encontrei anos depois, no Barreiro, trabalhava na construção e tinha perdido o gás todo..."

O final dos Arte & Ofícios teria a ver com mais um incidente da vida "on the road". Uma noite de 79, a banda dirigiu-se a alta velocidade para um concerto em Portimão. Fernando Nascimento guiava demasiado depressa o Ford Granada que os transportava, o que irritou Garcez. "Fui numa tensão horrível, pedi-lhe diversas vezes para andar mais devagar."

Chegado a Portimão, António Garcez tinha vontade de tudo menos de cantar. "À hora de começar o show, a sala cheia a chamar-nos e nós sem poder entrar em palco porque o baterista tinha ido comprar 'passa'". Os outros músicos, incluindo o pianista António Pinho Vargas, aceitaram que Sérgio Castro tocasse a bateria. "Eu disse: OK, mas quando acabar a tournée, saio da banda."

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Na colectânea Biografia do Pop-Rock surgem com "Festival", o seu primeiro single. Aqui, o baterista considera que " vamos encontrar músicos mais maduros. Há uma diferença considerável em relação aos Pop Five. Todos os elementos já tinham alguns anos de tarimba". O Arte e Ofício teve grande êxito, dentro e fora do país. Chegamos a realizar as primeiras partes dos concertos do Joe Jackson em Barcelona e em Madrid. Repetimos várias vezes actuações em Espanha e no sul de França". Os Arte e Ofício cessaram funções em 1981, para darem lugar aos Trabalhadores do Comércio.